Entrevista com a Professora Ana Paula Porto Alves

Inicialmente publicado em 13 de maio de 2026 no Blog Celeiro.

No interior do Paraná, em um tempo em que as oportunidades eram poucas e os sonhos, muitas vezes, precisavam esperar, nasceu uma menina que desbravou horizontes para fazer a diferença na vida de outras pessoas.

Ana Paula com poucos meses de idade. Arquivo Pessoal.

Ana Paula Porto Alves nasceu em 09 de outubro de 1984. Aos 9 meses de idade seus avós Artur e Ana a adotaram.

Avós de Ana Paula. Setembro de 2014. Arquivo Pessoal.

Criada pelos avós Artur Neves Porto (94 anos) e Ana Teles Porto (em memória), sua infância e adolescência se passaram na pequena cidade de Iporã no interior do Paraná.


Ana Paula (8 anos) ao lado da avó Ana (em memória). Arquivo Pessoal.


Ana Paula e seus avós. Setembro de 2014. Arquivo Pessoal.

Artur aos 4 anos (filho de Ana Paula) com seu bisavô Artur (94). Setembro de 2014. Arquivo Pessoal.


Ana Paula teve uma infância tranquila, vivia no sítio, cercada de paz e muito contato com a natureza.

Ana Paula aos 10 anos. Arquivo Pessoal.

A adolescência, por sua vez, foi desafiadora e abriu os olhos para muitas questões que antes não enxergava. Enfrentou bullying na escola e viveu um período de revolta por não ter uma família como a maioria: constituída por pai, mãe e irmãos, feliz e estável. Mas essas experiências também contribuíram para o seu amadurecimento.

Ana Paula aos 14 anos na Formatura da 8ª série. Em 1998 com seu tio Claudeci Teles Porto. Arquivo Pessoal.

Ana Paula aos 16 anos com seu tio Claudeci Teles Porto.

A juventude foi uma fase melhor. Criou amizades, conheceu mais amigos que na época da escola e, aos 18 anos, começou a trabalhar. Esse período marcou o início do crescimento, em que tudo foi melhorando aos poucos.

Ana Paula na formatura do Ensino Médio em 2001. Arquivo Pessoal.

Com o passar dos anos, Ana se consagrou como uma professora ímpar, dedicada à missão de formar cidadãos.

  • Em 2004, fez magistério.
  • Em 2008 licenciou-se em Pedagogia pelo Centro Universitário Internacional.
  • A pós-graduação em Educação Especial aconteceu em 2009 pelo CTESPOP - Centro Técnico - Educacional do Oeste Paranaense.
  • Em 2024, Ana concluiu a 2ª Licenciatura em Arte pela Faculdade de Venda Nova do Imigrante.
  • Em 2025, a mais recente pós-graduação em Arte e Educação também pela Faculdade de Venda Nova do Imigrante.

Em entrevista, Ana Paula recordou os momentos e desafios durante sua trajetória.

Jhonalter (entrevistador) e Professora Ana Paula.


Entrevista:

J) Ana Paula, quando você decidiu ser professora e por quê?

A.P.) Eu cresci no interior do Paraná, em um tempo em que as oportunidades eram difíceis. Quando terminei o ensino médio, meu coração desejava continuar estudando, seguir em frente, mas a realidade era outra! Eu não tinha condições de ir para outra cidade e assim fiquei por cerca de seis meses: parada, tentando entender qual seria o meu caminho.

Foi nesse tempo de incerteza que algo simples mudou tudo. Uma amiga da minha avó comentou que sua nora estava fazendo magistério e sugeriu que eu também fizesse, apenas para não ficar sem fazer nada. Minha avó, com todo carinho, me perguntou se eu queria… e eu disse sim.

Eu não sabia, mas aquele “sim” tão simples carregava um propósito enorme. O que começou como uma escolha sem grandes expectativas, aos poucos foi ganhando sentido, direção e amor.

Artur aos 4 anos (filho de Ana Paula) com sua bisavó Ana (em memória). Setembro de 2014. Arquivo Pessoal.

A.P.) Com o tempo, percebi que não fui eu quem escolhi ser professora, foi a profissão que me escolheu.

Foi Deus, em Sua delicadeza, me conduzindo mesmo quando eu não entendia.

Hoje, olhando para trás, vejo que até nos momentos de dúvida Ele já estava escrevendo a minha história. E aquilo que começou como uma oportunidade… se tornou missão, vocação e propósito de vida.

J) Há quantos anos você dá aula?

A.P.) Ministro aulas há cerca de 17 anos. Em um período da minha trajetória, cheguei a me afastar da sala de aula e, por 9 anos, trabalhei com transporte escolar. Mesmo assim, a escola nunca saiu do meu caminho, ela continuava presente no meu dia a dia.

Depois desse tempo, retornei à sala de aula e foi quando tive ainda mais certeza de que esse era o meu lugar. Hoje entendo que nem essa pausa foi por acaso, mas parte do caminho que me trouxe de volta, com ainda mais propósito, para aquilo que nasci para fazer.

Em Colégio Lúdico em Conchas/SP. Arquivo Pessoal.

J) Agora vamos falar sobre Educação Infantil. Por quanto tempo você foi professora da Educação Infantil?

A.P.) Trabalhei na Educação Infantil por 16 anos. Sou apaixonada pela educação infantil, as crianças são verdadeiras e espontâneas!

Ministrando aula no Colégio Lúdico em Conchas/SP. Arquivo Pessoal.

Em Colégio Lúdico em Conchas/SP. Arquivo Pessoal.

J) O que mais te marcou na Educação Infantil?

A.P.) O que mais me marca é o carinho, a sinceridade no olhar e a alegria com que me recebiam todos os dias. São gestos simples que dão sentido ao meu trabalho e renovam minha motivação.

Foto com alunos da E.M.E.I. "Professora Marilu Morato do Amaral" em Anhembi/SP, 2025. Arquivo Pessoal.

J) Sendo professora de adolescentes e ministrando aulas de Arte, qual é o maior desafio?

A.P.) Ser professora de adolescentes e jovens, ministrando aulas de Arte, traz como maior desafio manter a atenção e o interesse em um contexto em que tudo é rápido e facilmente acessível.

Vivemos em uma realidade em que a internet oferece respostas imediatas e muitos alunos já estão acostumados a essa dinâmica, o que dificulta o envolvimento em processos que exigem tempo, reflexão e dedicação.

Em Colégio Lúdico em Conchas/SP. Arquivo Pessoal.

A.P.) Além disso, ainda há a ideia de que a Arte é uma disciplina sem grande importância ou que não exige esforço, o que não corresponde à realidade. A Arte desenvolve habilidades essenciais, como expressão, criatividade, sensibilidade e pensamento crítico, e o desafio está justamente em mostrar esse valor aos alunos, despertando neles motivação e participação ativa no processo de aprendizagem.

J) Com base nessa "indiferença", você acha que a profissão PROFESSOR está ultrapassada?

A.P.) Na minha visão, a profissão de professor não está ultrapassada. Pelo contrário: é a profissão que sustenta todas as outras. Antes de existir um médico, engenheiro, advogado ou cientista, existiu um professor no caminho de cada um deles. O ensino tem uma importância única e insubstituível na sociedade, porque formar pessoas vai muito além de transmitir conteúdo.

Ao mesmo tempo, confesso que me preocupa pensar em como será nos próximos anos, tanto no Brasil quanto no mundo. Vivemos uma grande desvalorização da educação em muitos âmbitos da sociedade, enquanto a inteligência artificial e a velocidade das informações transformam tudo rapidamente. Hoje, qualquer resposta parece estar a um clique de distância, mas conhecimento não é apenas informação. O professor ainda é quem orienta, desenvolve senso crítico, humanidade, diálogo e sensibilidade; coisas que nenhuma tecnologia consegue substituir completamente.

Acredito que o ofício será transformado e ganhará novas faces. Talvez o professor do futuro precise ser ainda mais mediador, criador, orientador e humano. A tecnologia pode mudar ferramentas e métodos, mas dificilmente substituirá a presença, o olhar atento e a capacidade de inspirar que um verdadeiro educador possui.

Na E.M.E.I. "Professora Marilu Morato do Amaral" em Anhembi, 2025. Arquivo Pessoal.

J) Nesses anos todos em sala de aula, quais foram ou quais são as boas colheitas?

A.P.) Que pergunta interessante... Sou profundamente grata por tudo o que tenho colhido ao longo da minha trajetória. Para além do sustento e das conquistas materiais, levo comigo as amizades construídas, os vínculos que permanecem e todo o aprendizado que a vida me proporcionou.

O carinho dos alunos, o reconhecimento no dia a dia e, principalmente, a alegria de reencontrar muitos deles já formados, com suas famílias e seguindo seus caminhos, me mostram que meu trabalho teve significado, sabe?

Saber que, de alguma forma, contribuí para a história de cada um deles é, sem dúvida, a minha maior colheita.

Na E.M.E.I. "Professora Marilu Morato do Amaral" em Anhembi, 2025. Arquivo Pessoal.

J) Se tivesse que dar um conselho para quem pensa em se tornar professor, tendo em vista as mudanças e os desafios contemporâneos, qual conselho seria?

A.P.) Se tivesse que dar um conselho a quem pensa em se tornar professor hoje, eu diria que é preciso estar consciente dos desafios da realidade atual.

Hoje há desvalorização da profissão, a falta de apoio em muitos contextos e as mudanças no comportamento dos alunos. 

Ainda assim, se essa for a sua escolha, siga com propósito. Coloque o amor no centro do que você faz e esteja preparado com compreensão, paciência e equilíbrio para lidar com as dificuldades do dia a dia. 

E, acima de tudo, mantenha sua fé firme, lembrando sempre da palavra de Eclesiastes 9:10: “Tudo o que vier à sua mão para fazer, faça conforme as tuas forças.” É isso que sustenta, fortalece e dá sentido à caminhada.


Fé e espiritualidade

J) Você citou um versículo... Você é religiosa? Tem uma fé? Como é o seu relacionamento com Deus? 

A.P.) Essa pergunta é, sem dúvida, a mais profunda e a que mais me alegra responder.

Deus, pra mim, é o meu Tudo é o sustento dos meus dias, a força que me mantém de pé quando tudo tenta me derrubar. É nEle que encontro sentido, direção, paz e vida. 

"Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida".

Há 15 anos eu tive um encontro com Jesus, no meio de um louvor. Naquele momento, senti Ele me chamar pelo nome e dizer: “Vem viver tudo o que tenho pra você. Vem experimentar a Minha vontade, que é boa, perfeita e agradável.” 

E desde então, nunca mais fui a mesma pessoa.

Quando eu compreendi Romanos 12:2, meu coração mudou completamente. Entendi que viver com Deus não era apenas seguir regras ou frequentar uma igreja, mas permitir que Ele transformasse minha mente, meu interior e toda a minha forma de viver. Compreendi que a vontade dEle realmente é boa, perfeita e agradável e depois disso eu nunca mais quis saber de viver longe de Jesus.

Ana Paula e Artur na igreja Ministério Somos Um em Botucatu/SP.

A.P.) Todos os dias Ele me resgata. Todos os dias eu sinto a necessidade da Presença dEle, porque sem essa Presença eu morro por dentro. Posso até continuar andando e vivendo a rotina, mas sem Jesus nada em mim permanece completo.

Meu relacionamento com Deus é intenso. Eu amo Jesus e a minha vida pertence a Ele. Não busco a Deus por medo do inferno, nada disso, mas porque desejo viver a Sua Presença todos os dias da minha vida. 

É nesse lugar que encontro paz, direção, força e sentido para continuar.

Família e amigos no Batismo do filho Artur em março de 2024. Arquivo Pessoal.

Família como alicerce seguro

J) Ao ver seus registros da infância, como foi seu relacionamento com seu tio?

A.P.) Meu tio sempre esteve presente nos momentos mais importantes e difíceis da minha vida, é como um pai para mim.

Recentemente, meu tio me carregou nesse tempo de luto, não somente ele, mas minha tia Edneia também! Morei 8 meses com meus tios e eles me deram todo o suporte para superar... Eles me ajudaram muito! Sou muito grata também a uma amiga, Fabiana. Essas pessoas foram cruciais.

À esquerda: tio Claudeci Teles Porto, Ana Paula, tia Edneia da França Teles Porto. À direita, a amiga Fabiana.

J) É nítido que seu filho é um companheiro! Qual foi o impacto na sua vida a partir do primeiro momento que você soube da chegada dele?

A.P.) Sim! Artur tem 15 anos e chegou de surpresa na minha vida, mas foi um verdadeiro presente do Senhor. Ele veio no momento certo, trazendo uma alegria que eu não encontrava em mais nada. 

Quando descobri a gravidez, o impacto foi muito grande. Eu pensei: “E agora, como vai ser?”. Mas Deus já tinha tudo planejado, mesmo quando eu ainda não conseguia enxergar.

Ana Paula e o filho Artur. Arquivo Pessoal.

A.P.) Decidi enfrentar o mundo para ter o meu filho. Não foi um caminho fácil. A maternidade solo carrega muitos julgamentos, críticas e até tentativas de tirar a autoridade da mãe. E, sinceramente, até hoje não é fácil. Mas tudo o que faço é pensando nele, no seu bem-estar e no futuro dele. Eu amo meu filho com toda a intensidade do meu coração.

Formatura do 9° ano em 2024.

J) Como você se desdobrou entre a maternidade e a profissão?

A.P.) Nos primeiros anos, tive a ajuda dos meus avós. Minha avó cuidava dele para que eu pudesse trabalhar, e isso foi essencial. Depois, quando me casei, tive também o apoio do Douglas. E quando ele faleceu, voltou a ser somente eu e o Artur. Mas hoje posso dizer que nós nos ajudamos. Ele é meu companheiro, meu amigo, e está ao meu lado em tudo.

Conciliar a maternidade com a profissão exigiu muito de mim. Houve momentos de cansaço, medo e sobrecarga, mas um filho faz a gente descobrir forças que nem imaginava possuir. Muitas vezes eu precisei ser forte mesmo estando quebrada por dentro, porque sabia que ele dependia de mim.

Foto de Ana em seu casamento com seu marido e professor Douglas Alves Júnior (em memória). Arquivo Pessoal.

J) O que espera do futuro pela ótica da maternidade?

A.P.) Como mãe, meu maior desejo é que o Artur seja verdadeiramente feliz. 

Oro todos os dias para que as escolhas dele não o façam sofrer e para que ele trilhe caminhos mais seguros do que os que eu precisei passar. 

Peço constantemente a Deus que ele seja conhecedor e praticante da Palavra, porque acredito que somente em Jesus encontramos direção, proteção e propósito.

Formatura do 9° ano em 2024.


Vale a pena sonhar...

A história de superação de Ana Paula é inspiradora! A garotinha adotada pelos avós teve uma trajetória repleta de desafios e limites que poderiam tê-la feito desistir. Mas, foram superados com determinação porque a falta e a ausência não decidem o futuro.

Ana Paula mostrou que o estudo realmente abre portas e proporciona muitas conquistas na vida pessoal e profissional. Há certeza de que a Educação, a Arte e o cuidado com a infância cuidam daqueles que plantam a boa semente.

Nos momentos mais tempestuosos, a família é suporte. É o abrigo em que podemos nos refugiar até a cura ser completa.

Diante de tudo isso, a fé foi a âncora de Ana Paula. A conexão espiritual não pelo medo do inferno, mas pela paz nos dias bons e sustento nos dias difíceis.

Ana Paula, nos ensina a gerar uma fé prática e confessional. Todos os dias. Um dia de cada vez. E os seus efeitos transbordam na vida de outras pessoas.





Sobre o autor entrevistador:

Jhonalter Campos é Professor licenciado em Pedagogia pela Faculdade Galileu. Ex-Assessor Parlamentar da Câmara Municipal de Anhembi, também atuou como Professor da pré-escola da rede municipal. Atualmente, Jhonalter cursa a segunda graduação em Jornalismo e está disponível para colaborações e parcerias na área da Comunicação. Instagram: @jhonaltercampos.


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