De frente com a Morte

Muitos a confundem como inimiga, mas na verdade ela não é tão má. Por isso, decidi convidá-la para um bate-papo que irá nos ajudar a conhecê-la.




Essa entrevista foi produzida exclusivamente com base no modelo das cinco fases do luto proposto por Elisabeth Kübler-Ross. Existem famílias, comunidades religiosas e indivíduos que falam abertamente sobre o fim da vida, enquanto outros evitam completamente o tema. Para auxiliar na compreensão, criei esta entrevista fictícia e a convidada é a Morte. O objetivo é, de forma lúdica e figurativa, aprender sobre o tema.




Seja bem-vinda! Morte, antes de tudo, quero saber suas impressões no tocante à forma como as pessoas te vêem. Este primeiro momento é para você se apresentar. Quem é você?

Que curioso ouvir alguém dizer "seja bem-vinda". Na maioria das vezes, sou recebida com portas fechadas, lágrimas, revolta e perguntas sem resposta. Muito obrigada!

Eu sou finitude. Eu represento aquilo que o ser humano menos deseja encarar: a separação e a mudança irreversível.

Eu não sou o luto. O luto é o caminho percorrido pelos que ficam. Eu sou o acontecimento que interrompe a presença contínua de alguém; o luto é a tentativa humana de reorganizar a própria vida após essa interrupção. Por isso, quando me chamam de inimiga, não respondo com ofensa.

Sou a realidade que todos sabem que existe, mas poucos desejam convidar para uma conversa. Não peço para ser amada. Não exijo que deixem de chorar. Não espero serenidade imediata. Apenas lembro que a vida é limitada e que, justamente por ser limitada, costuma ser preciosa.

Morte, o comum e mais aceitável é a morte na velhice. Um exemplo, vivenciar um familiar ser acometido pelo Alzheimer. Alguns anos depois, acontecer de esse familiar muito próximo e querido falecer. O falecimento em si é menos doloroso. É triste, mas é mais aceitável como se o Alzheimer [a perda da memória de quem amamos, a desconsideração (porque não somos mais tão importantes para essa pessoa)] já fosse o primeiro luto, a primeira morte. Aos poucos. Vagarosa. Como você explica essa dinâmica entre Alzheimer e morte real na velhice?

Em situações como o Alzheimer, muitas famílias iniciam esse processo muito antes do último suspiro. A cada memória que se apaga, a cada mudança de personalidade e a cada reconhecimento que deixa de existir, os familiares experimentam pequenas perdas sucessivas. Há negação, raiva, barganhas silenciosas ("quem sabe ele volte a ser como antes"), tristeza profunda e momentos parciais de aceitação. É como despedir-se, repetidas vezes, de alguém que ainda está fisicamente presente.


Por isso, quando a morte acontece na velhice após uma doença degenerativa, algumas pessoas relatam que ela é menos chocante do que imaginavam. Não porque amavam menos, mas porque parte do trabalho emocional do luto já vinha sendo realizado ao longo do caminho. O falecimento continua sendo doloroso, porém a realidade da perda já havia sido reconhecida, aos poucos, pelo coração e pela mente. O amor permanece; o que muda é a forma como aprendemos a carregá-lo.

E em casos realmente inesperados, como alguém que tinha a vida toda pela frente ou acabaram de se casar. Como você explica isso?

Veja bem, o sofrimento nasce, em grande parte, do choque entre a realidade e as expectativas que nutríamos sobre o futuro. A esperança é uma das companheiras mais persistentes da experiência humana. Mas, quando se rompe aquilo que parecia ser a ordem natural da vida, a negação pergunta: "Isso não pode ser verdade". A raiva grita: "Por que um bebê? Por que alguém tão jovem? Isso é injusto". A barganha procura explicações e alternativas impossíveis: "E se tivesse saído mais tarde? E se o médico tivesse percebido antes?". O sofrimento nasce, em grande parte, do choque entre a realidade e as expectativas que nutríamos sobre o futuro.

Mas, para quem interpreta que foi você que foi buscá-los, como você se defende disso?

Como eu me defendo? Primeiro que eu não me apresento como quem escolhe quem merece partir primeiro ou depois. Alguns decidem acreditar em Deus, que Ele decide e que tem todos os dias contados. Outros, que é uma sucessão de acontecimentos e decisão do Universo. Outros, ainda, que não creditam a nenhuma crença ou religião.

O foco não está em justificar a morte, mas em compreender a resposta humana diante dela. Algumas perdas jamais parecem fazer sentido para quem fica. A aceitação, nesses casos, não significa encontrar uma explicação satisfatória para o acontecido; significa, dolorosamente, reconhecer que algo irreversível aconteceu e aprender, com o tempo, a continuar vivendo apesar das perguntas que talvez nunca sejam respondidas.


Mesmo diante da perda, as pessoas continuam esperando: pela cura, por mais um dia, por uma despedida, por algum sentido, ou simplesmente pela força necessária para atravessar a dor. Ter expectativas sobre o futuro, fazer planos e acreditar que a vida continuará é um sinal do profundo investimento afetivo que os seres humanos fazem na existência.

Justamente isso que torna o luto tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão belo. Sofremos porque amamos. Ficamos indignados porque imaginávamos aniversários, casamentos, conversas e anos ainda não vividos. A capacidade de sonhar com o amanhã não é ingenuidade; é uma das expressões mais nobres da condição humana. Sem esperança, a aceitação seria apenas resignação. Com esperança, ela se transforma na coragem de continuar vivendo. Por isso, a fé é tão necessária nesses momentos. É o alicerce que muitos precisam.

Cada pessoa pode enfrentar a morte e o luto de maneira diferente? Existe uma ordem das fases do luto? Um padrão?

Não existe um padrão. Algumas passam pela raiva com intensidade; outras quase não a experimentam. Há quem permaneça mais tempo na tristeza, quem oscile entre diferentes emoções e quem demonstre aparente serenidade desde o início.

Não existe uma ordem obrigatória das fases do luto. Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação não funcionam como degraus que todos sobem na mesma sequência. Elas são maneiras possíveis de reagir à perda. Uma pessoa pode vivenciar algumas delas, voltar a fases anteriores, experimentar mais de uma ao mesmo tempo ou não se identificar com todas.

O luto é profundamente humano e, por isso, também é singular. Cada pessoa é única, tem bagagens únicas, visões únicas e estrutura única.

Tem como fugir de você?

A tentativa de fugir de mim é uma das reações mais humanas que existem. A negação procura afastar a realidade da finitude: evitamos falar sobre a morte, agimos como se ela dissesse respeito apenas aos outros e acreditamos que sempre haverá mais tempo. É uma proteção psíquica compreensível diante de algo que nos assusta profundamente.

Eu proponho não optar pela fuga permanente, mas o caminho da aceitação. Aceitar não significa desejar a morte nem deixar de valorizizar a vida. Significa reconhecer que a finitude faz parte da existência humana. Quando deixamos de gastar toda a nossa energia tentando negar essa realidade, passamos a viver com mais presença, gratidão e intenção o tempo que temos.



Você está há milhares de anos viajando pela Terra. Como as diferentes culturas e civilizações te viam?

Desde a antiguidade, eu estive a serviço de diferentes sociedades e cosmovisões. No Egito Antigo, por exemplo, eu era vista como uma travessia para outra existência. O deus Anúbis conduzia os mortos, enquanto o coração da pessoa era pesado diante da deusa Maat. Se o coração fosse leve, o falecido poderia seguir para a vida eterna.


Na Mitologia Nórdica, a morte não era igual para todos. A deusa Hel recebia muitos dos falecidos em seu reino, enquanto guerreiros mortos em batalha poderiam ir para Valhalla. O destino após a morte estava ligado à forma como se viveu e morreu.


Para os judeus e cristãos, não sou uma divindade. O próprio YHWH decide quem irá morrer e quem terá vida. O Sheol aparece como o lugar para onde vão os mortos, justos e injustos. Não é apresentado, nos textos mais antigos, como um inferno de tormento, mas como a morada silenciosa dos falecidos, uma existência obscurecida e distante da vida terrena. A expectativa é que muitos dos que morreram serão despertados para a vida com o seu Deus em um novo céu e nova terra, uma espécie de paraíso eterno.



No Hinduísmo, o deus Yama é visto como juiz dos mortos. A morte não é o fim, mas parte do ciclo de renascimentos, orientado pelo conceito de karma. A alma segue sua jornada até alcançar a libertação espiritual.



No Japão, durante o Obon, acredita-se que os espíritos dos ancestrais retornam temporariamente ao convívio familiar. Lanternas são acesas para guiá-los, e a morte é tratada menos como ruptura definitiva e mais como permanência dos laços entre gerações.


De maneira parecida, os mexicanos são influenciados pelas tradições indígenas e pelo cristianismo, e celebram o "Día de los Muertos" a fim de transformar a saudade em memória festiva. Famílias montam altares, levam flores e alimentos aos cemitérios e celebram a continuidade do vínculo com aqueles que partiram.


Cada sociedade ensina maneiras diferentes de expressar o luto: algumas optam pelo silêncio e outras a contenção das emoções, outras incentivam celebrações e a expectativa de reencontro.

Morte, por que nós brasileiros choramos muito a partida? Por que não conseguimos normalizar?

Vocês, brasileiros, são um povo que investe muito nas relações e nos afetos. A vida é compartilhada à mesa, em festas, em abraços, nas conversas demoradas e nos encontros familiares. Quando alguém parte, não se perde apenas uma pessoa; perde-se uma voz, um lugar à mesa, uma rotina, uma forma única de amar e ser amado. Em uma cultura tão calorosa e relacional, a ausência costuma ser sentida com enorme intensidade.
Como nação, como parte de sua identidade, para muitos de vocês, o amor raramente é discreto. Vocês expressam em gestos, em ações, em músicas, em homenagens, em almoços aos domingos e por aí vai... Não diferente disso, vocês tendem a demonstrar a dor de forma mais visível.



Morte, como normalizar em nossa cultura? Para não doer tanto? Para não ser o fim?

Talvez vocês não precisem normalizar a morte a ponto de ela deixar de doer. A dor é o preço do amor, e uma cultura que ama intensamente também lamentará intensamente. O problema não é chorar; é transformar a morte em um assunto proibido, como se falar sobre ela pudesse atraí-la. Quando não conversamos sobre a finitude, somos surpreendidos não apenas pela perda, mas também pela nossa falta de preparo para enfrentá-la.

Então, por te tratarmos como um Tabu, nós nos limitamos e consequentemente ficamos despreparados?
Sim, a forma com que vocês convivem comigo pode, talvez, aliviar e ajudar a suportar o processo. Deixa de ser apenas um fim assustador e passa a ser também um convite para viver com mais profundidade o tempo que vocês têm uns com os outros.

Como aproveitar o tempo que temos uns com os outros? Quais dicas você tem hoje para a gente?

Vocês têm um problema: a tecnologia. Ela não é problemática, mas vocês tornaram ela problemática. Na verdade, ela aproxima quem está longe e permite encontros que antes seriam impossíveis ou difíceis de acontecer somente com cartas e localizações falhas. O problema surge quando o imediatismo transforma pessoas em distrações secundárias. Vocês registram aniversários sem vivê-los, respondem mensagens durante o jantar e dividem a atenção entre quem está ao lado e uma infinidade de estímulos na palma da mão. O tempo não diminuiu; a capacidade de viver plenamente o momento com quem está perto é que mudou.

Se eu pudesse lhes oferecer um conselho, seria este: adiem menos os afetos. Digam que amam, peçam perdão, conversem sem pressa, visitem os pais, brinquem com os filhos, ouçam os idosos repetirem histórias, celebrem pequenas conquistas e estejam verdadeiramente presentes nos momentos comuns. São esses momentos comuns, bobos e ordinários que ficam para sempre com a gente. Ignorar torna todo o luto mais difícil, porque o arrependimento será maior: "Ah, se eu pudesse voltar no tempo e aproveitar mais!" – façam agora.

Acredito que até aqui, o nosso público pôde te conhecer melhor. Qual é o recado final que você quer deixar para o leitor?

Quando eu chegar, o meu desejo é que vocês entendam que o que mais consola não é a perfeição do passado. Pessoas não são perfeitas, os relacionamentos não são perfeitos. O que irá consolar vocês é a certeza de que, dentro do possível, vocês estiveram uns com os outros de corpo, mente e coração.
A vida passa rápida demais! Um dia, leitor, eu volto me encontrar com você. Individualmente. E então, você terá cumprido a sua missão. Terá encerrado a sua jornada. Como deverá ter cumprido: com coragem, bons plantios e esperança. E eu espero ser bem recebida e poder te dar um abraço.





Sobre o autor:

Jhonalter Campos é Professor licenciado em Pedagogia pela Faculdade Galileu. Ex-Assessor Parlamentar da Câmara Municipal de Anhembi, também atuou como Professor da pré-escola da rede municipal. Atualmente, Jhonalter cursa a segunda graduação em Jornalismo e está disponível para colaborações e parcerias na área da Comunicação. Instagram: @jhonaltercampos.





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