Crônica: "O encontro com a sorte"

No topo da árvore, alguns grunhidos mais ásperos que os comuns. Dois urubus batem asas fervorosos, tal qual dois comentaristas em Copa do Mundo.

Urubus veem tudo lá de cima: açudes e riachos; mangueiras e gado; canaviais e estradas; a lavoura de feijão do Nhô Gonçarves; a fazenda leiteira da Dona Marli Quevedo... Nada passa despercebido pelos olhos dos urubus.

Depois de voarem a manhã inteira, Óscar e Richard desceram para o galho da árvore e começaram a confabular:



– Por pouco a gente não almoçava aquela velhota, hein, Óscar?

– Pois é, meu parceiro! A mimosa enfiou o casco na toca tão fundo que ficou empacada! Se não fosse aquele peãozinho...

– GAGAGA! Mais fácil que isso, só aquela ovelha do Zé Durval que caiu na voçoroca!

– Bão demais! O Durval nem se apercebeu e foi procurar no outro lado da fazenda, o que deu tempo pra gente usufruir e lamber a ranfoteca! GAGAGAGA!


Alguns minutos se passaram, ambos com olhos atentos na estrada.

– Richard, cê lembra aquela vez do Moisés?

– O cavalo velhote que se dizia alazão?

– Pois é! GAGAGAGAGA!!!

– GAGAGAGAGA!!!

– Óscar, e o coelho do netinho do Menegirdo?

– GAGAGAGAGA!!!

– GAGAGAGAGA!!!

– Richard, bom mesmo é o matadouro da Fazenda Consolação, um paraíso a céu aberto pra nós!

– Dizem que não está tão legalizado a forma com que eles fazem o descarte...

– E desde quanto você se preocupa com carne legalizada, Richard? GAGAGAGA!!!

– Pois é! GAGAGAGAGA!!!


Os dois levantam vôo dando gargalhadas. O que ninguém sabe é que a vida dos urubus é regida pela sorte. Há dias bons e há dias ruins. Embora tenham semelhanças às aves de rapina e bicos adaptados o bastante para rasgar a pele de animais mortos, os urubus dependem da visão e olfato apurados. Durante longas jornadas de voo, os urubus usufruem de correntes de ar quente para planar e localizar seu alimento.




Sobre as águas tranquilas de um rio, um barco vazio. As ondas cintilantes não os impedem de ver o próprio reflexo no espelho natural.

Ao descer em círculos, eles avistam o pescador sobre a vagarosa correnteza. Eis o dono do barco, há horas esquecido. Óscar e Richard se encontram com a sorte mais uma vez.





Crônica: "O encontro com a sorte".
Autor: Jhonalter José de Campos.
2026, 04 de junho.
Interior de São Paulo.



Jhonalter Campos é professor licenciado em Pedagogia pela Faculdade Galileu de Botucatu/SP. Acesse o Instagram para ter acesso a outros conteúdos: @jhonaltercampos.

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